A opinião de José Paulo Soares sobre o artigo que assinei, “Como vai a reforma laboral afetar a sua saúde?”, parece assentar na ideia de que a exaustão é um efeito colateral menor da produtividade. Não é. Talvez essa perspetiva seja compreensível em setores onde o erro gera um atraso, uma perda financeira ou um incómodo. Na Medicina, porém, o erro pode custar vidas.
Quando escrevi sobre o impacto da reforma laboral na saúde dos profissionais e dos utentes, não estava a formular uma hipótese académica. Estava a descrever uma realidade quotidiana do Serviço Nacional de Saúde (SNS): jornadas prolongadas, decisões clínicas tomadas após muitas horas de trabalho e equipas insuficientes para responder às necessidades da população.
É sempre interessante ouvir quem defende que o aumento da disponibilidade laboral constitui uma demonstração de modernidade económica. Menos interessante é constatar que essas análises raramente incluem a experiência concreta de quem trabalha em contextos onde a fadiga não é um conceito teórico, mas uma condição operacional diária absolutamente central.
Nenhuma reforma laboral séria devia partir do princípio de que os profissionais são recursos inesgotáveis, sobretudo num setor em que a capacidade de concentração, discernimento e decisão tem consequências diretas na segurança de terceiros.
A questão central nunca foi se os médicos trabalham muito por vocação. Trabalham. A questão é saber se um Estado responsável deve normalizar modelos organizacionais assentes na exaustão dos seus profissionais. A experiência mostra que não.
Os países que conseguem fixar profissionais de saúde, garantir melhores resultados clínicos e proteger os seus serviços públicos, não o fazem através da banalização das jornadas excessivas. Fazem-no através de carreiras valorizadas, equipas adequadas e respeito pelos limites humanos de quem cuida. Talvez seja por isso que, quando se discute trabalho, alguns veem números e outros veem pessoas.
Para quem observa o SNS através de gráficos e modelos económicos, a degradação das condições de trabalho pode parecer uma abstração estatística. Para quem o vive todos os dias, ela tem rostos, nomes e consequências: profissionais que abandonam o serviço público, serviços que encerram e doentes que esperam demasiado tempo por cuidados. E tem, por vezes, bebés que nascem em ambulâncias. Não porque a natureza tenha alterado os seus calendários, mas porque há limites operacionais que, quando ultrapassados, deixam de ser conceitos de gestão para passarem a ser realidades humanas.
Quem nunca teve de tomar decisões com consequências irreversíveis ao fim de muitas horas de trabalho consecutivas pode encarar a fadiga como um conceito discutível. Mas a realidade tem que lidar com a teimosia dos factos. É dessa realidade que falamos quando discutimos condições de trabalho no SNS. Não de abstrações ideológicas, nem de folhas de cálculo.
in Ecco