Os dados da atividade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) relativos a janeiro de 2026 mostram uma diminuição do número de consultas hospitalares e de doentes operados em relação ao mesmo mês do ano passado. Ao todo, foram feitas menos 62 mil consultas e operados menos seis mil doentes, de acordo com os dados publicados no portal do SNS. Este é o segundo mês consecutivo de quebra na atividade do SNS, depois de, em dezembro, já se ter registado uma quebra no número de consultas e cirurgias nos hospitais públicos em relação ao período homólogo. Os administradores hospitalares consideram a diminuição da atividade “preocupante” e apontam a crescente ocupação de camas com casos sociais como uma das explicações, enquanto a Direção Executiva do SNS (DE-SNS) lembra que os meses em questão ficaram marcados pelo adiamento de atividade programada nos hospitais devido à gripe. A verdade é que uma diminuição simultânea de consultas e cirurgias nos hospitais em dois meses consecutivos, como a registada em dezembro e janeiro últimos, já não se registava no SNS desde 2022. Mais: desde a pandemia, pelo menos, que não se regista uma diminuição de qualquer um destes indicadores nos meses de inverno, uma tendência agora interrompida. A quebra na atividade acontece também num contexto de restrições orçamentais, com a DE-SNS a avisar os hospitais – primeiro, numa reunião em outubro, e mais recentemente, em março – que é necessário cortar na despesa, o que poderá implicar o congelamento da atividade assistencial. Nesta fase, os administradores hospitalares não associam a diminuição da atividade do SNS às instruções dadas pela DE-SNS. Já a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) garante que os hospitais “receberam indicação para conterem a despesa”, o que “significa cortar na capacidade assistencial”. Número de doentes operados caiu 10% em janeiro Em janeiro de 2026, foram realizadas 1.244.973 consultas hospitalares no SNS, menos 4,74% do que no mesmo mês de 2025, quando se tinham realizado 1.306.975 consultas, ou seja, cerca de 62 mil consultas a menos. No entanto, a maior quebra em termos relativos foi mesmo registada no número de doentes operados. Em janeiro de 2026, foram intervencionados 61.222 doentes nos hospitais, menos 9,9% do que os 67.937 que tinham sido operados no mesmo mês de 2025. No caso da atividade cirúrgica, foi nas cirurgias não oncológicas que se registou a maior quebra: em janeiro, foram operados 54.483 doentes, menos 10,66% do que os 60.986 que tinham sido alvo de intervenção cirúrgica em janeiro de 2025. Já no que diz respeito às cirurgias oncológicas, foram operados 6.739 doentes, menos 3,05% em relação aos 6.951 operados em janeiro de 2025. Os dados de janeiro confirmam, assim, a retração na atividade assistencial programada do SNS que já tinha sido registada em dezembro de 2025. Nesse mês, foram realizadas 978.280 consultas hospitalares (tanto primeiras consultas como subsequentes, ou seja, de seguimento), menos 11,52% do que as 1.105.626 consultas realizadas em dezembro de 2024, o que representa uma diminuição de mais de 120 mil consultas no mesmo mês. Já no que diz respeito às cirurgias, foram operados 50.897 doentes em dezembro último, menos 4,86% do que em dezembro de 2024. Tal como aconteceu em janeiro, a quebra foi menos acentuada (menos 1,55%) nos doentes oncológicos operados, que passaram de 5.649 em dezembro de 2024 para 5.562 em dezembro de 2025. Nas cirurgias não oncológicas, foram operados 45.335 doentes, menos 5,25% em relação aos 47.847 registados no período homólogo. Gestores hospitalares alertam que internamentos sociais prejudicam atividade cirúrgica dos hospitais Ao Observador, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) relaciona a diminuição do número de cirurgias com a crescente ocupação de camas hospitalares com pessoas com alta clínica, os designados internamentos sociais. “A perceção que temos é que há mais camas ocupadas com doentes que não deviam estar hospitais. Há um ano tínhamos 12% das camas ocupadas com casos sociais e antecipo que esse valor tenha aumentado“, realça Xavier Barreto, acrescentando que, nalguns hospitais, a ocupação de enfermarias com estes casos chega entre 20 e 30% do total de camas, o que, alerta, “prejudica muito a atividade programada”. Por isso, o presidente da APAH volta a pedir soluções ao Governo, de forma a retirar os casos sociais dos hospitais. Outro fator que pode ter contribuído para a diminuição da atividade do SNS nos meses de dezembro e janeiro, diz Xavier Barreto, foi a ativação dos planos de contingência dos hospitais, uma situação que pode ter tido um impacto especialmente relevante nas cirurgias, realça. Com o aumento da afluência devido à gripe e a outras infeções respiratórias, várias Unidades Locais de Saúde (ULS), algumas de grande dimensão, optaram por ativar os respetivos planos de contingência, o que implicou o adiamento de atividade programa (consultas e, sobretudo, cirurgias) de forma a dar resposta a aumento da procura de doentes agudos. Em resposta enviada ao Observador, a DE-SNS faz a mesma análise, sublinhando que “nos meses de dezembro e janeiro verificou-se a necessidade de proceder a ajustamentos na organização da atividade assistencial das unidades de saúde, designadamente através da redução temporária de alguma atividade programada, de forma a garantir capacidade de resposta aos casos urgentes e emergentes, devido ao pico de incidência de infeções respiratórias”. No entanto, a ativação desta resposta de contingência no período de inverno acontece todos os anos, lembra Xavier Barreto, com maior ou menor impacto nas ULS. No anterior inverno, de 2024/2025, várias ULS também ativaram os planos de contingência, o que não impediu um aumento da atividade assistencial em relação ao inverno de 2023/2024. O presidente da APAH avança ainda com um terceiro fator que pode ter impactado na evolução da atividade assistencial do SNS: a retração nas cirurgias adicionais. “As notícias em torno das cirurgias adicionais, como aconteceu no [hospital de] Santa Maria, podem ter levado alguns Conselhos de Administração a limitarem estas cirurgias”, conjetura o presidente da APAH. Já a DE-SNS aponta ainda para o calendário para tentar justificar a diminuição da atividade registada este inverno. “O mês de janeiro do presente ano teve menos um dia útil face ao período homólogo, circunstância que, por si só, tem impacto na produção assistencial. Estima-se que esta diferença corresponda aproximadamente a 4,7% da atividade”, realça o organismo liderado por Álvaro Almeida. Produção assistencial no inverno vinha sempre a crescer desde a pandemia. Tendência foi interrompida A diminuição do número de consultas e cirurgias no SNS em dois meses consecutivos é uma realidade que o SNS não conhecia desde os meses de junho e julho de 2022, segundo os dados publicados no portal da Transparência. Ainda assim, a quebra de atividade registada nessa altura foi muito inferior à que se verificou em dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Em junho e julho de 2022, as cirurgias programadas recuaram 1,6% e 1,2%, respetivamente, em relação ao período homólogo, enquanto as consultas diminuíram 0,7% e 2,1% – longe das quebras registadas este inverno. Para se encontrar uma diminuição simultânea de consultas e cirurgias de dimensão semelhante ou maior do que de dezembro e janeiro últimos é preciso recuar até ao ano de 2020, quando a pandemia de covid-19 obrigou o SNS a suspender, durante semanas, parte significativa da atividade programada. Para além disso, e apesar das dificuldades características do período de inverno, o número de consultas hospitalares e cirurgias realizadas no SNS tinha vindo sempre a aumentar nos meses de inverno – o que não aconteceu em dezembro e janeiro. Aliás, desde a pandemia que o SNS tem vindo sempre numa trajetória de aumento anual da produção, tanto nas consultas como nas cirurgias, sendo raros os meses de quebra de atividade. A interrupção desta tendência – e logo em dois meses consecutivos – acontece pouco depois de o Governo ter apresentado, em outubro, um Orçamento do Estado que prevê um corte de 10% na rubrica dos bens e serviços do SNS, num valor superior a 800 milhões de euros, o que poderá afetar áreas como medicamentos, material clínico, dispositivos médicos ou contratação de trabalho à tarefa. No final de outubro, o jornal Público noticiou que a DE-SNS deu instruções aos hospitais para cortarem na despesa em 2026, mesmo que isso resultasse num abrandamento do ritmo de cirurgias e consultas. Na mesma linha, no início de março, e numa outra reunião com as Unidades Locais de Saúde (ULS) e os IPO, a DE-SNS deu instruções para travar o aumento da produção assistencial (consultas e cirurgias) em 2026 e avisou que não haverá reforço de recursos financeiros e humanos este ano para além do que está previsto, como avançou o Observador, citando presidentes de ULS que estiveram presentes na reunião. Entretanto, a DE-SNS veio publicamente negar que tenha dado tais instruções. FNAM diz que “SNS não precisa de ordens para cortar na despesa” O presidente da APAH descarta, para já, a possibilidade de a diminuição da atividade programada estar relacionada com a contenção orçamental prevista para o SNS, e avisa que reduzir custos em 10%, como pretende o Ministério da Saúde, é impossível. “A ideia de redução de 10% na despesa é descabida, porque não é exequível de ser aplicada na prática, parece-me uma meta impossível”, realça Xavier Barreto, lembrando que o contexto em que o SNS opera (com uma população mais envelhecida e com mais gastos com medicamentos inovadores) dificultam qualquer redução substancial da despesa. O responsável, que trabalha no hospital de São João, diz mesmo que os “hospitais vão continuar a trabalhar da mesma forma”, e que o objetivo de prestar cuidados vai ser sempre uma prioridade, mesmo que os gestores tenham de ultrapassar a lei e autorizar despesa sem cabimentação orçamental. “Os gestores, mesmo numa situação em que não tenham recursos e cabimentação, vão continuar a assegurar a prestação de cuidados. Vamos continuar a ter despesa, dívida, e o Estado vai pagar esse dívida no final do ano”, antecipa Xavier Barreto, ressalvando, ainda assim, que há espaço para melhorias de eficiência na compra de medicamentos, por exemplo. Recorde-se que a Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso proíbe os gestores públicos de assumirem despesas que excedam os fundos disponíveis. Se o fizerem, podem ser alvo de sanções civis, criminais, disciplinares e financeiras. Já a vice-presidente da FNAM, Joana Bordalo e Sá, realça que os hospitais receberam indicações para cortarem na despesa, o que se reflete na capacidade assistencial. “Os hospitais têm mesmo essa indicação, para não gastar, e para haver uma contenção da despesa. Isso está a ser-nos dito pelas próprias instituições e claro que significa cortar com a capacidade assistencial”, sublinha a dirigente sindical. Na prática, diz, as novas orientações traduzem-se numa maior dificuldade em obter “medicamentos, dispositivos e MCDT [meios complementares de diagnóstico e terapêutica]” para os doentes. “É tudo muito lento e muito difícil”, lamenta, acusando também o Governo de dar orientações aos hospitais e IPO no sentido de não aumentarem os recursos humanos. “Traduz-se invariavelmente em menos contratação de médicos, enfermeiros, assistentes. Isto não é uma gestão eficiente, é simplesmente cortar a atividade”, acusa Joana Bordalo e Sá, sublinhando que o “SNS não precisa de ordens para cortar na despesa porque depois, reflete-se nos doentes”. “São sempre eles que ficam a perder”, completa.

in Observador