O Serviço Nacional de Saúde (SNS) só existe porque há médicos dispostos a sustentá-lo todos os dias. Mas o SNS não sobreviverá se continuar a falhar com aqueles que o constroem desde a base: os médicos internos.

Durante décadas, o SNS foi mais do que um prestador de cuidados. Foi um espaço de missão, de pertença e de transmissão de conhecimento. Um lugar onde a doença nunca foi tratada como um negócio e onde o médico mais experiente assumia a responsabilidade de formar o mais novo, garantindo continuidade, qualidade e ganhos reais em saúde para a população.

Criado a 15 de setembro de 1979, o SNS nasceu para assegurar o acesso equitativo aos cuidados de saúde, independentemente da condição económica ou do local de residência. Representou — e continua a representar — uma das maiores conquistas da democracia portuguesa e do Estado social.

Hoje, porém, esse legado está seriamente ameaçado.

Os médicos internos, pilar fundamental do SNS, são cada vez mais encarados como meros recursos para tapar falhas em escalas de urgência cronicamente desfalcadas. Trabalham frequentemente com equipas instáveis e, em situações particularmente graves, exercem funções praticamente sem tutela adequada. Aquilo que deveria ser um período estruturado de formação tornou-se, demasiadas vezes, um exercício de sobrevivência profissional.

Como é possível que o médico que está na primeira linha de contacto com o doente não esteja sequer integrado na carreira médica? Como poderá este médico, no futuro, formar novas gerações, se não lhe é garantido nem tempo, nem condições para estudar, aprender e crescer? Como é aceitável que um dos elementos mais basilares do SNS seja também um dos mais vulneráveis ao assédio e à precariedade?

As consequências estão à vista: um número crescente de vagas de acesso à especialidade fica por preencher, refletindo um sistema que já não consegue reter nem motivar os seus profissionais mais jovens.

A ti, médico interno, que acreditas na equidade dos cuidados de saúde, que queres melhores condições de trabalho e que defendes um SNS público, forte e exemplar: não baixes os braços. O futuro do SNS também depende de ti — e da tua voz.