Segundo a presidente do Sindicato dos Médicos do Norte, 95% dos casos ocorreram no setor público, 90% em contexto hospitalar, 95% envolveram médicos especialistas e 74% médicas.

O assédio laboral em serviços de saúde no Norte atinge sobretudo médicos especialistas, em particular médicas, e hospitais públicos, denunciou o Sindicato dos Médicos do Norte, que aponta a desvalorização, humilhação e sobrecarga de trabalho como as principais situações.

Os dados resultam de um estudo de duas dezenas de casos acompanhados pelo sindicato no Norte do país, entre janeiro de 2025 e junho de 2026, e serão apresentados no III Congresso Académico Sindical e na II Jornada Científica da Federação Médica Brasileira, que decorre hoje e sábado em Curitiba, no Brasil.

Segundo a presidente do Sindicato dos Médicos do Norte (SMN), 95% dos casos ocorreram no setor público, 90% em contexto hospitalar, 95% envolveram médicos especialistas e 74% médicas.

A também vice-presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) apontou a forte hierarquização dos hospitais, a sobrecarga e o medo de denunciar como fatores que agravam o problema.

“Às vezes há ideia de que só há assédio quando há uma agressão muito evidente, mas não é assim”, afirmou à agência Lusa.

Segundo os dados, a desvalorização sistemática surge em cerca de um terço dos casos, seguida pela humilhação reiterada, sobrecarga de trabalho, isolamento profissional e ameaças de processos disciplinares.

Foram também identificadas tentativas de alteração de horários e alegadas represálias relacionadas com atividade sindical.

Para Joana Bordalo e Sá, a concentração dos casos nos hospitais revela um problema estrutural, associado a estruturas “extremamente hierarquizadas” e à dependência dos médicos em relação às chefias na organização do trabalho, horários, formação, avaliação e progressão profissional.

“Quando as equipas têm autonomia, quando as equipas podem participar na escolha de quem é o seu líder”, como é o caso das Unidades Familiares de Saúde Modelo B, as situações são diferentes

A dirigente diz que os canais internos de denúncia existentes nas instituições não inspiram confiança aos profissionais, sobretudo devido ao receio relativamente à confidencialidade, às consequências profissionais e à independência das investigações.

Por isso, o SMN criou recentemente um canal SOS para situações de assédio laboral, com garantia de anonimato, que tem vindo a registar um aumento no número de médicos que recorre ao sindicato.

“Muitas vezes temos médicos que sofrem em silêncio”, lamenta, relatando que há profissionais que acabam por abandonar os serviços, deixar o SNS ou até desistir da própria profissão.

A dimensão de género é também destacada pela sindicalista. Embora existam mais médicas do que médicos no SNS, essa proporção não se reflete nas chefias, alertando ainda para casos de médicas que acabam por abdicar de direitos como o horário de amamentação por receio de represálias.

Para a sindicalista, existe uma cultura de “impunidade total” relativamente ao assédio laboral: “Às vezes também há assédio interpares, mas a grande parte dos casos é exercido pelas chefias, então os conselhos de administração têm tendência a proteger essas chefias, e os casos são arquivados” e até pode acontecer haver penalização para quem é assediado, vincou.

“É por isso que muitas vezes nós acabamos mesmo por ter que avançar para tribunal”, explica.

O SMN defende medidas estruturais de prevenção como melhor organização do trabalho, participação dos médicos na escolha das lideranças, canais de denúncia seguros e credíveis, investigação independente das situações reportadas e proteção efetiva para quem denuncia.

No congresso serão discutidos temas como a formação médica, a regulação profissional e os desafios atuais do trabalho médico.

Para Joana Bordalo e Sá, não é possível discutir a qualidade da formação médica sem olhar para as condições em que os médicos trabalham, exemplificando que a carga média de trabalho dos médicos internos aproxima-se das 53 horas semanais. Cerca de 85% fazem trabalho suplementar, 62% fazem trabalho noturno e mais de metade reporta um mau equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Para Joana Bordalo e Sá, a sobrecarga, as jornadas excessivas, a dificuldade de conciliação, o ‘burnout’ e a perda de atividade das carreiras contribuem para a saída de médicos do SNS.

in Correio da Manhã