Ainda que mal pergunte !... : por Rosalvo Almeida

domingo, 14 fevereiro 2021 21:03

Então, ele virou-se para mim e disse-me assim:

– Tens visto os telejornais? Não achas estranho os doentes aceitarem tão facilmente ser filmados a mostrar os seus sofrimentos e emoções?

– Acho! Mas estou certo de que os jornalistas pedem autorização para os filmarem e para aparecerem na TV.

– E isso basta?

– Parece-me que não, mas que queres? É o que está a dar…

– E não podemos fazer nada?

– Nós, eu e tu, não podemos fazer nada. Talvez indignarmo-nos nas redes sociais ou participar em fóruns das telefonias sem fios, sei lá!

– Cá para mim, os profissionais de saúde, nas suas unidades de internamento, nem percebem que podem desempenhar um papel na moderação dos jornalistas.

– Os jornalistas, sedentos de casos, têm artes de ultrapassar as barreiras que encontram e os doentes e seus familiares estão também sedentos de fama.

– E não podemos fazer nada?

– Talvez as comissões de ética das instituições possam sair da sua passividade. Talvez possam trabalhar junto dos seus profissionais de saúde no sentido de lhes lembrar as suas responsabilidades éticas nesta matéria. Há que lhes fazer ver que,

se um jornalista pretende gravar um depoimento de um doente, os médicos e os enfermeiros podem (e devem) aconselhar moderação e lembrar as vantagens da confidencialidade. Afinal receberem mensagens a dizer que os viram na TV não compensa

o sossego perdido nem as insinuações de exibicionismo fácil.

– Parcimónia? O que isso? És muito ingénuo!

– Achas?

 
 
 

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